- Acórdão nº: 1101-001.486
- Processo nº: 15563.720220/2016-21
- Câmara/Turma: 1ª Câmara / 1ª Turma Ordinária
- Relator: Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho
- Data da sessão: 10 de dezembro de 2024
- Resultado: Negado provimento por unanimidade
- Tipo de recurso: Recurso Voluntário
- Instância: Segunda Instância
- Valores em discussão: IRPJ R$ 1.748.718,87 + CSLL R$ 630.592,03
- Período: 3º trimestre de 2012
O CARF confirmou o lançamento de ofício de IRPJ e CSLL contra a PPX Indústria e Comércio de Alumínio Ltda, mantendo a autuação por divergência entre valores declarados na DIPJ e aqueles informados na DCTF. A decisão, por unanimidade, rejeita a alegação de compensação com créditos de PIS/COFINS não comprovados formalmente.
O Caso em Análise
A PPX Indústria e Comércio de Alumínio Ltda, empresa do setor de produção e comércio de alumínio, declarou em sua DIPJ do ano-calendário de 2012 valores significativos de IRPJ e CSLL a pagar referentes ao terceiro trimestre. Porém, na mesma época, a companhia informou e recolheu valores muito menores junto à DCTF (Declaração de Contribuições Federais, Estaduais e Municipais sobre a Folha de Salários).
A fiscalização constatou essa discrepância relevante:
- IRPJ 3º trimestre: R$ 1.753.330,39 (declarado em DIPJ) vs. R$ 4.611,52 (declarado em DCTF) = diferença de R$ 1.748.718,87
- CSLL 3º trimestre: R$ 633.358,94 (declarado em DIPJ) vs. R$ 2.766,91 (declarado em DCTF) = diferença de R$ 630.592,03
A administração fiscal lavrou autos de infração para lançamento de ofício dos valores não recolhidos, considerando essa falta de recolhimento uma violação das obrigações tributárias. A Delegacia de Julgamento (DRJ) manteve o lançamento, e o contribuinte recorreu ao CARF argumentando disponibilidade de créditos de PIS/COFINS para compensação.
As Teses em Disputa
Questão Processual: Tempestividade da Impugnação
Tese do Contribuinte: A impugnação é tempestiva e deve ser conhecida pelo CARF, sendo apresentada regularmente como recurso voluntário dentro do prazo legal.
Decisão do CARF: A impugnação foi reconhecida como tempestiva. O CARF acolheu a tese preliminar do contribuinte, corrigindo a comunicação inicial de intempestividade e permitindo o julgamento do mérito da causa, conforme prescrito no Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/1966).
Mérito: Lançamento de Ofício por Falta de Recolhimento
Tese do Contribuinte: O lançamento de ofício é improcedente porque a companhia estava legitimada a compensar os débitos de IRPJ e CSLL com créditos de PIS/COFINS que possuía. O contribuinte apresentou planilha desses créditos e alegou ter direito à compensação, ressaltando que a apuração do IRPJ pelo lucro real permite adições, exclusões e transferência de prejuízos fiscais entre períodos. A mera diferença entre declarações não representaria falta de recolhimento se houvesse compensação válida.
Tese da Fazenda Nacional: Constatada a divergência entre valores declarados em DIPJ e aqueles informados e pagos em DCTF, impõe-se o lançamento de ofício dos valores não recolhidos. A obrigação de recolhimento é independente de possíveis compensações futuras, que exigem procedimentos formais e comprovação específica. A mera alegação de créditos, sem formalização em instrumentos como o PER/DCOMP, não é suficiente para desconsiderar a falta de recolhimento.
A Decisão do CARF
O CARF, por unanimidade, negou provimento ao recurso e manteve integralmente o lançamento de ofício. A fundamentação concentra-se em dois pilares:
1. Procedência do Lançamento de Ofício
A Corte Administrativa reafirmou:
“IRPJ. FALTA DE RECOLHIMENTO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. Constatada falta de recolhimento de tributo em procedimento de revisão de declaração, efetua-se o lançamento de ofício correspondente aos valores não recolhidos/declarados em DCTF.”
A decisão repousa no fundamento de que a divergência entre DIPJ e DCTF caracteriza falta de recolhimento que justifica a autuação de ofício. As normas citadas — Lei nº 9.430/1996 (apuração e recolhimento de IRPJ), Lei nº 7.689/1988 (CSLL) e Lei nº 8.981/1995 (obrigações de DCTF) — estabelecem que a declaração em DCTF deve refletir os valores efetivamente devidos e recolhidos no período.
2. Insuficiência da Alegação de Compensação
O CARF rejeitou a defesa de compensação com créditos de PIS/COFINS porque:
- A mera alegação de créditos, sem comprovação efetiva e formalização, não desconstitui a obrigação de recolhimento do trimestre
- O PER/DCOMP (Programa de Recuperação Fiscal ou Pedido de Compensação) não foi adequadamente utilizado ou transmitido, impossibilitando a análise formal da compensação
- Compensações tributárias exigem procedimentos formais específicos e não podem ser autorizadas por simples alegações em planilhas anexadas ao processo
- A falta de recolhimento em DCTF permanece como um ato fiscal independente, que gera a obrigação tributária pelo próprio lançamento
Detalhamento dos Valores Lançados
O CARF manteve os seguintes lançamentos:
| Tributo | Período | Declarado (DIPJ) | Recolhido (DCTF) | Diferença Lançada | Resultado |
|---|---|---|---|---|---|
| IRPJ | 3º trim/2012 | R$ 1.753.330,39 | R$ 4.611,52 | R$ 1.748.718,87 | Mantido |
| CSLL | 3º trim/2012 | R$ 633.358,94 | R$ 2.766,91 | R$ 630.592,03 | Mantido |
Total da divergência não recolhida: R$ 2.379.310,90
Impacto Prático e Consequências
Esta decisão reforça uma jurisprudência importante no CARF sobre a responsabilidade das empresas no controle de suas obrigações tributárias:
Para Empresas de Lucro Real
Empresas que se beneficiam da apuração pelo lucro real devem manter especial vigilância sobre a coerência entre suas declarações. A DIPJ registra a base de cálculo e o imposto devido; a DCTF informa e documenta o recolhimento realizado. Divergências significativas entre esses dois documentos — como ocorreu neste caso, com diferenças acima de R$ 1,7 milhão — são imediatamente identificáveis pela administração fiscal e resultam em autuação de ofício.
Compensações Devem Ser Formalizadas
A decisão deixa cristalino que créditos para compensação (PIS, COFINS, ICMS ou outros) não podem ser invocados informalmente. Para que uma compensação seja válida e reconhecida, é essencial:
- Documentação clara do crédito (demonstrativo de cálculo)
- Utilização de instrumentos formais como PER/DCOMP
- Transmissão eletrônica à Receita Federal dentro dos prazos exigidos
- Não deixar a compensação apenas em alegação posterior no processo administrativo
Risco de Sanções Adicionais
Além do lançamento de ofício, a falta de recolhimento pode gerar multa e juros de mora, aumentando significativamente a exposição tributária da empresa. A decisão do CARF não menciona redução de penalidades, sugerindo que as multas também foram mantidas.
Lição para o Setor de Alumínio
Empresas do setor de indústria e comércio de alumínio — frequentemente sujeitas a oscilações de margens e apuração complexa — devem implementar controles internos robustos de conformidade tributária, garantindo que valores declarados em DIPJ correspondam efetivamente aos recolhimentos em DCTF e que qualquer compensação seja documentada e formalizada tempestivamente.
Conclusão
O acórdão 1101-001.486 reafirma que a divergência entre DIPJ e DCTF constitui falta de recolhimento independente, passível de lançamento de ofício pela administração fiscal. A alegação de créditos para compensação, ainda que legítima, não pode ser invocada informalmente para justificar falta de recolhimento declarado; ela exige formalização através de instrumentos específicos como o PER/DCOMP.
Para contribuintes autuados em situação similar, a decisão evidencia a importância de consultar assessoria especializada e regularizar a posição tributária mediante instrumentos formais de compensação, antes que o processo administrativo avanço em estágios que reduzem as possibilidades de acordo ou reconhecimento de créditos.



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