- Acórdão nº: 2001-007.531
- Processo nº: 15563.000268/2009-90
- Turma: 1ª Turma Extraordinária / 2ª Seção
- Relator: Wilderson Botto
- Data da Sessão: 28 de novembro de 2024
- Resultado: Negado provimento por unanimidade
- Tipo de Recurso: Recurso Voluntário
- Instância: Turma Extraordinária
- Tributos: Contribuição Previdenciária Patronal e Contribuições a Terceiros
- Período Fiscalizado: Setembro/2004 a Abril/2005
- Setor Econômico: Engenharia e Projetos
A Marc Engenharia e Projetos Ltda recorreu ao CARF contra lançamento de contribuições previdenciárias (FNDE, INCRA, SEBRAE, SESI e SENAC) fundamentado em aferição indireta de remuneração. A 1ª Turma Extraordinária rejeitou todas as teses da empresa, mantendo o lançamento e confirmando a aplicação do método indireto quando os registros contábeis não refletem o movimento real de salários.
O Caso em Análise
A empresa prestadora de serviços de engenharia e projetos foi autuada pela fiscalização previdenciária por recolhimento parcial de contribuições sociais previdenciárias referentes ao período de setembro de 2004 a abril de 2005.
Durante a auditoria, o fisco constatou que os registros contábeis mantidos pela empresa não refletiam o movimento real das remunerações pagas a seus colaboradores. Com base nessa constatação, a fiscalização procedeu à aferição indireta do salário de contribuição, utilizando as notas fiscais de serviços como parâmetro para estimar a mão de obra empregada.
A decisão de primeira instância (DRJ/RJ) confirmou o lançamento. A Marc Engenharia recorreu ao CARF, suscitando preliminares sobre nulidade do lançamento e responsabilidade de representantes legais, além de questionar a legalidade e constitucionalidade da aferição indireta.
As Preliminares Rejeitadas
Nulidade por Cerceamento do Direito de Defesa
A empresa argumentou que o lançamento era nulo por violação do direito de defesa. O CARF rejeitou a tese por unanimidade.
“Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.”
A Turma constatou que a decisão recorrida estava devidamente circunstanciada nas razões de fato e de direito, não havendo qualquer preterição do direito de defesa. Portanto, não havia motivos legais para decretação da nulidade.
Responsabilidade de Representantes Legais e REPLEG
A empresa alegou que a inclusão de seus representantes legais no REPLEG (Relatório de Representantes Legais) e a anexação de vínculos ao auto de infração resultariam em atribuição de responsabilidade tributária a essas pessoas. O CARF rejeitou novamente.
Segundo a jurisprudência consolidada (Súmula CARF nº 88), a inclusão de representantes no REPLEG tem finalidade meramente informativa. Não resulta em imputação de responsabilidade tributária quando o auto de infração é lavrado exclusivamente contra a pessoa jurídica.
Essa diferença é crucial para empresas: o registro de representantes legais é obrigatório e informacional, mas não gera solidariedade ou responsabilidade pessoal dos administradores pela dívida tributária.
A Decisão do CARF sobre Aferição Indireta
O mérito da questão envolveu a validade da aferição indireta como método de apuração de remuneração em contribuições previdenciárias. O CARF manteve a decisão da DRJ de forma unânime.
O Direito à Aferição Indireta
A Turma consignou que quando há recolhimento parcial de contribuições previdenciárias, a fiscalização está autorizada a proceder ao arbitramento do débito devido. Nesse contexto, o contribuinte suporta o ônus da prova em contrário.
“Constatado o recolhimento parcial de contribuições destinadas à seguridade social, a fiscalização, por arbitramento, lançará de ofício o débito devido, sem prejuízo da penalidade aplicável, cabendo ao contribuinte o ônus da prova em contrário.”
Quando os registros contábeis não refletem o movimento real das remunerações pagas, a aferição indireta é o instrumento legal previsto no art. 33, § 6º da Lei 8.212/1991.
A Regra dos 40%
Um ponto crucial desta decisão é a fundamentação na IN MPS/SRP nº 3/2005, art. 600, I, que estabelece um parâmetro objetivo para a aferição indireta:
“A remuneração da mão de obra utilizada na prestação de serviços corresponde, no mínimo, a 40% do valor dos serviços constantes da nota fiscal, da fatura ou do recibo de prestação de serviço.”
Isto significa que em empresas de serviços (como a Marc Engenharia), quando a fiscalização não consegue comprovação contábil adequada, presume-se que pelo menos 40% do faturamento corresponde a remuneração de mão de obra. Essa presunção é relativa e pode ser afastada por prova contrária robusta do contribuinte.
Para empresas de engenharia e projetos, essa regra é especialmente relevante, pois são intensivas em mão de obra intelectual e técnica.
Rejeição de Alegações de Inconstitucionalidade
A Marc Engenharia questionou a constitucionalidade e legalidade dos dispositivos legais que fundamentam a aferição indireta. O CARF rejeitou essa tese com base na Súmula CARF nº 2:
“O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei tributária.”
Conforme o art. 150, I da Constituição Federal, a administração pública está subordinada ao princípio da estrita legalidade. Enquanto os dispositivos legais estiverem vigentes, devem ser cumpridos, independentemente de questionamentos quanto à sua constitucionalidade — essa apreciação compete ao Poder Judiciário (STF), não ao CARF.
Rejeição de Pedido de Dilação Probatória
A empresa solicitou a produção de novas provas e realização de perícia. O CARF negou o pedido por considerar que os elementos de convicção já presentes nos autos eram suficientes para a solução da lide.
Conforme jurisprudência consolidada do CARF, a dilação probatória é dispensável quando há elementos probatórios adequados. A defesa deve instruir os autos com provas que fundamentem seus argumentos sem deixar dúvidas; caso contrário, o pedido de novas provas é rejeitado.
Impacto Prático para Empresas de Serviços
Esta decisão consolida entendimento importante para empresas prestadoras de serviços (engenharia, consultoria, arquitetura, etc.):
- Registros contábeis são determinantes: A falta de documentação clara da remuneração paga abre espaço para aferição indireta
- A regra dos 40% é presunção relativa: É possível afastá-la com prova documental robusta (folhas de pagamento, recibos, contratos), mas o ônus é do contribuinte
- Notas fiscais de serviços são parametrizadas: Quando a documentação interna é fraca, o fisco usa as NFs de receita como base para estimar a mão de obra
- Inconstitucionalidade não funciona no CARF: O conselho administrativo não revoga leis; questionamentos constitucionais devem ir ao Judiciário
- Unanimidade reforça a tese: A rejeição unânime indica jurisprudência consolidada em favor da Fazenda sobre esse tema
Recomendação prática: Empresas que prestam serviços devem manter escrituração contábil rigorosa com alocação clara de custos de mão de obra, especialmente quando o percentual for inferior a 40% do faturamento. Laudos técnicos, planilhas de alocação de recursos e contratos de trabalho devem estar organizados para apresentação à fiscalização, a fim de afastar a presunção de aferição indireta.
Conclusão
O CARF, por unanimidade na 1ª Turma Extraordinária, consolidou que a aferição indireta de remuneração é instrumento legítimo e constitucional quando os registros contábeis não refletem adequadamente as remunerações pagas. A regra dos 40% (IN MPS/SRP nº 3/2005) é presunção relativa que pode ser afastada por prova contrária adequada.
Resta claro também que o CARF não é foro apropriado para questionar a constitucionalidade de leis tributárias — essa competência é exclusiva do Poder Judiciário. A decisão reforça a importância da documentação contábil adequada em empresas de serviços e a necessidade de defesa baseada em provas documentais robustas nos processos administrativos tributários.



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