- Acórdão nº: 1001-003.636
- Processo nº: 10980.900052/2008-19
- Turma: 1ª Turma Extraordinária
- Relator: Gustavo de Oliveira Machado
- Data da sessão: 11 de novembro de 2024
- Resultado: Provimento por unanimidade
- Tipo de recurso: Recurso Voluntário
- Instância: Turma Extraordinária
- Valor do crédito reconhecido: R$ 39.982,93
- Período: Ano-calendário 2001
O CARF reconheceu, por unanimidade, o direito creditório de R$ 39.982,93 referente a IRRF (Imposto sobre a Renda Retido na Fonte) recolhido a maior pelo Banco Banestado S.A. em 2001. A decisão homologou a compensação integral do crédito, reformando a posição da administração que havia negado o reconhecimento da compensação eletrônica.
O Caso em Análise
A Banco Banestado S.A., instituição financeira, recolheu indevidamente o valor de R$ 39.982,93 em IRRF através de DARF com código 0561, referente ao período de 2001. O banco declarou erroneamente na DCTF do 3º trimestre de 2001 que o valor correspondia a débito do período, quando na verdade se tratava de recolhimento que excedia a obrigação tributária.
A empresa tentou compensar o crédito através de PER/DCOMP (Pedido de Restituição/Declaração de Compensação), mas a compensação não foi homologada eletronicamente. A DRJ (Delegacia de Julgamento de Restituições) de Curitiba julgou a manifestação de inconformidade como improcedente, alegando que o crédito havia sido integralmente utilizado em pagamentos anteriores.
O Banco Banestado recorreu voluntariamente ao CARF para reconhecer seu direito creditório. A decisão de primeira instância foi reformada integralmente.
As Teses em Disputa
A Questão Processual: Vício na Homologação Eletrônica
Tese do Contribuinte: O Banco Banestado argumentou que a não-homologação eletrônica da compensação violou seu direito constitucional de ampla defesa. Segundo o contribuinte, faltou demonstração das razões que levaram à rejeição da homologação, o que constituiria vício que deveria resultar em nulidade do despacho decisório.
Tese da Fazenda Nacional: A administração fiscal sustentou que a compensação não poderia ser homologada porque os valores do DARF teriam sido integralmente utilizados para quitação de débitos anteriores, não restando crédito disponível para compensar os débitos informados.
O Mérito: Reconhecimento do Crédito de IRRF
Tese do Contribuinte: O valor de R$ 39.982,93 foi recolhido indevidamente como DARF vinculado a débito do período. Na verdade, o recolhimento foi efetuado totalmente a maior, gerando direito creditório que deveria ser reconhecido integralmente para fins de compensação.
Tese da Fazenda Nacional: Manteve a argumentação de que não havia crédito disponível porque os valores já tinham sido utilizados em quitações anteriores.
A Decisão do CARF
Reconhecimento da Liquidez e Certeza do Direito Creditório
O CARF, após retorno de diligência que comprovou as alegações do contribuinte, reconheceu a liquidez e certeza do direito creditório. A Turma Extraordinária adotou a seguinte fundamentação:
“Com o retorno de diligência, com a comprovação da liquidez e certeza do direito creditório em discussão, deve haver o reconhecimento do valor devidamente comprovado, nos termos do art. 170 do Código Tributário Nacional.”
A diligência foi decisiva. Com os comprovantes apresentados e verificados, ficou demonstrado que:
- O valor de R$ 39.982,93 foi efetivamente recolhido em 2001;
- O recolhimento não correspondia a débito do período declarado;
- O crédito possui natureza de pagamento indevido ou a maior;
- Há liquidez e certeza para reconhecimento e homologação da compensação.
Homologação da Compensação
O CARF determinou a homologação das compensações até o limite reconhecido, ou seja, até R$ 39.982,93. A decisão permitiu que o banco compensasse o crédito contra débitos posteriores de IRRF, conforme direito reconhecido no art. 170 do CTN.
A unanimidade da votação reforça a solidez da fundamentação: não houve qualquer divergência entre os conselheiros da Turma Extraordinária.
Crédito Reconhecido
| Descrição do Crédito | Valor | Resultado |
|---|---|---|
| IRRF — Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (ano-calendário 2001) | R$ 39.982,93 | Aceito |
Impacto Prático para Instituições Financeiras
Esta decisão do CARF reafirma princípios importantes para instituições financeiras e contribuintes em geral:
1. Direito ao Crédito Comprovado — Quando há recolhimento indevido ou a maior de tributo, o contribuinte tem direito creditório que pode ser exercido via compensação, desde que exista liquidez e certeza do direito.
2. Importância da Diligência — O retorno da diligência foi decisivo para reconhecer o crédito. Empresas devem preservar toda documentação de recolhimentos para comprovar eventuais pagamentos indevidos.
3. Direitos Processuais — O CARF considerou relevante a questão da homologação eletrônica e da ampla defesa, reconhecendo que falhas procedimentais não podem prejudicar direitos creditórios comprovados.
4. Compensação de IRRF — Instituições financeiras e demais contribuintes podem compensar créditos de IRRF contra débitos posteriores, amplificando o impacto prático do reconhecimento em primeira instância.
Para bancos e instituições similares, o caso ilustra a importância de desafiar administrativamente recolhimentos indevidos, mesmo quando negados em primeira instância. A Turma Extraordinária disponibiliza via Recurso Voluntário nova oportunidade de análise com potencial de reversão.
Conclusão
O acórdão 1001-003.636 do CARF representa vitória integral do contribuinte no reconhecimento de crédito tributário de IRRF. A decisão unânime reafirma que créditos comprovados, com liquidez e certeza, não podem ser negados por falhas procedimentais administrativas. Para o Banco Banestado, o resultado permitiu homologar compensação de R$ 39.982,93, mitigando o impacto financeiro de um recolhimento indevido cometido há mais de duas décadas.
A fundamentação baseada no art. 170 do CTN oferece segurança jurisprudencial a outros contribuintes em situação similar, consolidando a jurisprudência do CARF sobre reconhecimento de direitos creditórios em processo administrativo fiscal.



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